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A Noite Escura da Alma

A Noite Escura da Alma - Uma Depressão Espiritual

A “Noite Escura da Alma” ou NEA é um termo que provavelmente já deve conhecer. Provavelmente já passou por um período da sua vida em que a sua alma passou por um momento escuro, ou provavelmente conhece alguém que já tenha passado pela NEA.Foi atraída para este post porque alguma parte do seu Ser vibra com este nome, com a energia que carrega, mesmo sem nunca tendo ouvido falar sobre o assunto.
Estas palavras que escrevo são para si. 

A “Noite Escura da Alma” é um processo interno e muito emocional pelo qual todos passamos em algum momento da nossa vida, ele faz parte do caminho de cada um. Pode ser que já tenha passado, pode ser que esteja a passar agora, ou pode ser que venha ainda a passar por ele, mas o que é certo, é que todos os seres humanos em algum ponto da sua vida chegam a um momento em que colocam tudo em causa, todos os seus sonhos e objetivos, os seus projetos de vida e até a sua própria identidade. 



Comecemos pela história

O termo “Noite Escura da Alma” nasceu pela mão de S. João da Cruz, um padre carmelita do sec. XVI, que, durante um período de encarceramento, escreveu um poema com o mesmo título. 

Este poema, que ficou famoso no mundo cristão, relata a jornada de uma alma desde o momento que encarna até que morre. Fala de todas as dificuldades que a alma tem na sua caminhada de volta a Deus. A jornada é referida como “Noite Escura”, pois a escuridão representa as dificuldades da alma em desapegar-se do mundo e atingir a luz da união com o Criador. Há vários níveis nesta escuridão atados em sucessivos estágios. A ideia principal do poema pode ser vista como sendo a dolorosa experiência que as pessoas têm de suportar ao buscar crescimento espiritual e a união com Deus.A obra é dividida em dois livros que se referem a dois estágios da escuridão da noite. O primeiro é a purificação dos sentidos. O Segundo e o mais intenso de ambos é o da purificação do espírito, que é também o mais difícil de ser atingido. A “Noite Escura da Alma” ainda descreve os dez níveis na progressão em direção ao amor místico, tal como fora descrito por São Tomás de Aquino e, em parte, por Aristóteles.Embora no poema o sentido dado à Noite Escura da Alma esteja mais relacionado à jornada da alma em si, o termo ficou conhecido no catolicismo e fora dele como a crise que o espírito enfrenta para superar a materialidade. Abalo da fé, dúvidas, sensação de vazio, abandono, incompreensão e desconexão são os indícios de que sua alma passa por esse período. 

S. João da Cruz não criou o processo, apenas lhe deu um nome. O processo em si é antigo, e inerente à condição humana. Na Bíblia são diversos os relatos de crises internas, o Rei Davi, nos salmos passa por uma grave crise de angústia, Jeremias é conhecido como o “profeta chorão”, e acredita-se que Jesus passou por uma “noite escura” quando perguntou a Deus – “Pai, porque me abandonaste?” - no momento da sua crucificação. 


Que processo é este então? 

A NEA, pode ser considerado um período de depressão espiritual, é um momento das nossas vidas, que pode durar dias, meses ou anos.

 “Sente-se separada de Deus e dos homens. Sozinha, mesmo desejando não estar, incapaz mesmo de expressar-se a outros, incorpora a meia-noite e a intensidade da noite escura.” 

 Vamos imaginar:

A vida corre-nos bem, temos tudo aquilo pelo qual sonhámos e pelo qual lutámos para ter. Vivemos em equilíbrio e serenidade, mas certo dia, acordamos com um sentimento de vazio no peito, uma angústia que nasce e não sabemos explicar. Os dias passam, e estes sentimentos aumentam. A luz e a esperança teimam em abandonar-nos. A fé, outrora tão forte, ausenta-se. A nossa noção de identidade esvaneia-se e sentimentos profundos de solidão e abandono tomam conta dos nossos dias. Entramos num período negro e sombrio, muito difícil de se ultrapassar, que ninguém à nossa volta parece compreender. Amigos e familiares tentam em vão ajudar, aparentemente não existem razões para nos sentirmos assim, afinal temos tudo o que queremos, mas parece que isso já não é suficiente e o dinheiro e bens materiais já não nos contentam. 

 Iniciamos agora uma busca infrutífera por soluções, a dor dói, e queremos apenas que pare de doer. Procuramos respostas em livros, em conversas com os outros, nos médicos ou medicação… Nada parece resolver esta angústia, este medo da incerteza, este sentimento de alienação e incompreensão e esta sensação de estarmos sozinhos e abandonado no mundo. Nascem perguntas na nossa mente – “Quem sou eu? O que faço aqui? De que serve viver se é para sofrer? Qual é o meu propósito? – Nesta busca desenfreada de respostas, podemos até cometer (ou sentir vontade de cometer) “loucuras” como mudar de trabalho, largar o marido, mudar de cidade ou até de país. Temos vontade de começar do zero, de renovar, de recomeçar, de viver uma vida nova. 

 Pois esta vontade nasce da natureza do processo em si. Ele é, nada mais, nada menos que um processo de renovação interna e acabamos por buscar fora, o que sentimos falta dentro. 

 “Não há nada para ser feito, não há nada para pensar, sentir, fazer, nenhum lugar para ir.” 

 Ao longo da nossa vida, vamos passando por vários estágios de consciência também conhecidos como saltos quânticos evolutivos. A mudança de um estágio para outro parte do pressuposto de que algo tem que morrer para algo novo nascer. Pois aqui, o que morre é uma parte de nós, morrem velhas crenças, valores antigos, velhos paradigmas, e com isto traços de personalidade que já mais não sirvam ao nosso propósito ou consciência. A vida é feita destes saltos quânticos de consciência, mas quando acontecem ou quantas vezes na vida acontecem, isso já depende da entrega ao crescimento interno em si de cada um. Poderíamos comparar a NEA aos exames escolares, em que para passarmos de ano temos que primeiro ser avaliados pelo ano que passou. Somos assim iniciados a níveis de consciência mais elevados.


Porque dói? 

Enquanto o que é velho e já não nos serve se desfaz, entramos em conflito interno entre velhos paradigmas, a velha maneira de agir e um novo mundo de oportunidades. É um período de adaptação a toda uma nova realidade interna, e é a necessidade de fuga à dor por parte do Ego faz todos estes sentimentos piorarem. Quanto mais o Ego luta para manter o controle, mas o processo demora e mais o processo dói. 

No desenrolar de nossa existência, somos envolvidos de tal forma pelas atividades do dia-a-dia, pelos nossos costumes, pensamentos ou crenças e podemos não perceber os sinais que o Universo nos manda, informando a necessidade de mudança nas nossas vidas. 

Levamos a vida envolvidos por uma ignorância abençoada, o que não conhecemos não nos causa dor. Vivemos com os sentidos adormecidos pela cultura do “ter”, ter o trabalho perfeito, ter a casa dos sonhos, ter a conta bancária recheada, ter a família perfeita, ter, ter, ter, mas a nossa alma anseia apenas por uma coisa: “ser”!

Este é o conflito! O Ego não sabe ser, o ego sabe apenas ter, e conhece apenas serenidade dentro dos limites da sua zona de conforto. Tudo o que nos obriga a sair dela, o ego luta contra e para se manter no poder, cria artimanhas para que tudo fique como sempre esteve, o ego luta pela estagnação, enquanto a alma grita pela evolução. No instante em que não dá para ficar mais no mesmo lugar, a alma toma conta, e o salto quântico é imperativo, tudo muda, tudo se transforma, tudo se renova, acaba o dia e chega a noite escura. 


 Como continuar a viver? 

 Se conseguíssemos ver o processo por aquilo que ele é na realidade, toda a angústia seria dissipada e daria lugar a sentimentos de esperança e alento. Criaríamos uma ansiedade, tal como uma criança antes de receber um presente. 

 Quando aceitamos esse momento difícil, essa dura lição, esse remédio amargo e enfrentamos a situação, conseguimos transformá-la com fé e acessamos o nosso poder de cura pessoal. Ao contrário, se não nos responsabilizarmos pelas mudanças, a NEA vai continuando ao longo do tempo, podendo durar uma vida. Tudo depende da nossa atitude. 

Aqueles que já passaram positivamente pela NEA, tiveram que trabalhar a coragem, desenvolveram a resistência, encontraram uma força que desconheciam e, fundamentalmente, aprenderam mais sobre si mesmos, compreenderam seus defeitos e tornaram-se seres humanos melhores. 

Jamie Sams, diz que os nativos norte-americanos consideram a NEA, como um rito de passagem, que pode fortalecer a natureza guerreira que é parte do nosso espírito. Todos nós temos essa coragem, e conquistamos a vitória sobre a NEA, simplesmente por sobreviver a ela. Esse duro rito de passagem, nos torna valentes e corajosos e nos leva de volta à nossa essência espiritual.

 “Você não pode encontrar a luz a menos que incorpore a escuridão” 

 É necessário mantermos uma atitude positiva, meditar, conversar com pessoas que já tenham passado pelo mesmo, que tragam uma nova luz e uma nova consciência à nossa vida. Voltar a estar em contato com a natureza, tomar conta do corpo como quem nutre uma criança, com amor, carinho e compaixão.Tal como a noite dá lugar ao dia, a Noite Escura da Alma também dá lugar a uma nova existência, o nascer do sol é doce, macio, quente, harmonioso. É a nova alvorada, novos raios de esperança. Tal como começa, passa inesperadamente e em poucos dias a alegria volta e neste momento o ego perde o controle e se afasta. A pessoa encontra a sua luz. 

 “Eu sou uma floresta e uma noite de árvores escuras, mas aquele que não tem medo da minha escuridão encontrará arbustos cheios de rosas sob os meus ciprestes”

 É o momento de deixar fluir as emoções e também a razão. A cabeça, ávida por compreensão, vai tentar atribuir sentido a tudo quanto for possível, o que acaba por gerar ainda mais frustração. Nem tudo pode ser explicado à luz da razão, e essa é a primeira lição que a “Noite Escura da Alma” nos ensina: há coisas que simplesmente não fazem sentido, mesmo para a alma mais espiritualizada. 


 Resumidamente: 

 Como vimos, a tensão e a ansiedade são necessárias no processo de amadurecimento espiritual e psicológico. Noutras palavras, é a fricção interior que faz com que o espelho das nossas almas seja polido o suficiente para que possamos perceber a nossa natureza, nossa verdadeira origem.Por isso, não devemos temer essa fase, pelo contrário. Devemos aprender com ela, agradecer por estarmos avançando na jornada evolutiva, agora capazes de perceber o mundo para além da materialidade. 

 Durante uma crise de NEA, podemos ter um, vários ou todos os seguintes sintomas: 

  • Perda da identidade, da finalidade e do sentido da vida 
  • Sentimentos de depressão, desespero ou isolamento 
  • Sentimentos de tristeza sem razão aparente 
  • Sentimentos de indignidade ou de não merecimento das bênçãos da vida 
  • Solidão, incompreensão e a impressão de que estamos condenados ao sofrimento 
  • Perda da energia ao longo do dia ou cansaço crónico não ligado a uma desordem física 
  • Alternância de períodos de euforia extrema, insónias, agitabilidade e períodos de sonolência, desmotivação ou falta de força 
  • Perda do controle sobre seu sentido pessoal e/ou profissional na vida 
  • Sensibilidade incomum a fatores ambientais
  • Raiva, frustração, falta de paciência 
  • Sentimentos de loucura ou insanidade 
  • Sentimento de abandono por Deus, ou Guias Espirituais 
  • Sentimentos de inadequação, alienação ou incapacidade 
  • Perda de atenção, da autoconfiança, da autoestima 
  • Sentimentos de pequenez e impotência ou paralisação 
  • Perda de interesse em coisas ou atividades que outrora gostava 
  • Saudosismo de algo que ainda não foi vivido 


 Afinal de contas a “Noite Escura da Alma” é apenas: 

  • Renovação 
  • Dissolução/morte do ego 
  • Autoconhecimento 
  • Transmutação 
  • Olhar para dentro 
  • Mudança de paradigmas 
  • Dissolução de crenças 
  • Mudança de valores 
  • Nova identidade 
  • É uma bênção disfarçada, acaba com ilusões e fantasias. 
  • Busca pela verdade espiritual 
  • Busca pela essência 
  • Cada nascimento de uma nova verdade, trás a morte de uma opinião velha 
  • Teste severo de fé 


 Um último conselho 

Tentar levar a vida segundo os conceitos divinos não é fácil. Agradecer, perdoar e aceitar são virtudes pouco incentivadas pela vida em sociedade; estão muito presentes nos discursos e narrativas, porém, não as encontramos nas atitudes humanas. O mundo parece premiar os injustos e espertos, e isso aprofunda a Noite Escura que a alma atravessa. O segredo é não desanimar e procurar não estabelecer padrões, compreendendo que a justiça divina transcende a nossa compreensão.Nos momentos mais difíceis confiar na vida e no mundo espiritual é a tábua de salvação para qualquer escuridão. Aceite os sentimentos, mesmo aqueles mais densos, pois evitá-los não gera crescimento. Já integrá-los como um produto natural da vida na matéria, sim. O que não tem remédio, remediado está. Continue sempre em frente, mesmo que as emoções pareçam sufocar a alma. Paciência é também uma grande lição que a Noite Escura da Alma oferece. Não há mapa, receita de bolo ou manual, pois cada um vive a sua verdade e atrai para si as experiências na medida exata de suas necessidades. O sofrimento é também a chave que nos liberta da prisão e as cicatrizes que trazemos na alma são o lembrete de que somos fortes, além de representarem a memória da nossa jornada.“Do sofrimento emergiram as Almas mais fortes; os personagens mais notáveis são marcados com cicatrizes”.

Para finalizar partilho com vocês a música de Loreena McKennit com o mesmo nome.

Gratidão!

Ana Rosa



Referências: 
https://www.xamanismo.com.br/noite-escura-da-alma/ 
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_Escura_da_Alma 
https://omundodegaya.com/2013/11/02/a-noite-escura-da-alma-o-caminho-para-a-evolucao/ 
https://www.wemystic.com.br/noite-escura-alma/